quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Tua Imagem



Madrugada fria...
Ele está ali na cama, deitado.
Dorso nu brilhando com o reflexo das velas que estão acesas no quarto.
Parece um menino, dormindo leve e seguro, aqui ao meu lado.
Me acalma e revigora vê-lo assim tão lindamente desprotegido e indefeso. Confiante.
É madrugada e está muito frio...
Uma taça de vinho me acompanha neste momento e a vontade de escrever ultrapassa o meu controle.
Escrevo compulsivamente...
Maravilhosamente inebriada pelo vinho e pela imagem dele...
Escrevo.

"Espreguiço-me....
Estamos em mar aberto.... tão suave ondula o domingo entre cortinas...
Assim, lânguida na cama desfeita, deito o corpo de faíscas súbitas . Deleite...
Não me olhe como se ouvisse língua estrangeira passeando em nosso ninho, só pra me ver dizer - moída de prazer : Fogo !!!
Busco um código imediato, hiato em tons ardentes...
Delíciaaaaaaa.....faz um delicioso vento entre os dentes...
Fala que me fascina, sina que marca a pele...
Me derramo, não me encolho.
E por entre meus cabelos procuro teu olho......."


Helena Jorge

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Anseio

Madrugada quente
em que a chuva grossa lava o asfalto
aroma deliciosamente conhecido
reconhecido.

Conto
distraída
os palitos de fósforo queimados
que ainda persistem em habitar
o espaço limitado
da caixa

Uma ultima dose me espera
o que será de mim quando chegar ao fim?

Fim
palavra que reluto bravamente
em pronunciar

Fim
Destino inglório
que teima em me perseguir...

Fim
recomeço
fim
recomeço...

E assim
contando fósforos
economizando goles
a noite me envolve
quente
molhada
como meu corpo que aguarda
anseia
a tua chegada.


Helena Jorge

Das longas noites suadas

Das longas noites suadas e murmurantes
Das horas silenciosas e entrecortadas
Do gosto de suor nos lábios e língua
De pensamentos lascivos retiro então
Minhas memórias enlanguescidas
Da tua pele de pérola misteriosa
Lar de meus dedos longos e sedentos
Rainha de meus desejos sôfregos
Tens em tuas mãos meus segredos
Dona de meus músculos retesados
De dor e paixão lancinante
Respiro o ar que exalas de tua boca
Me alimento de teu corpo quente
Bebo o suor que verte de tua pele
Tu és a Senhora de meus anseios
De minhas noites em claro
Das minhas longas tardes mornas
Perversa e cruel em tua distância
Solícita em teus sabores e calores
Te perco e te encontro e não te prendo
Solta entre meus braços e pernas
Te desejo e espero tua volta
Ao teu reino, minha Rainha
Ao reino de nossas longas e suadas noites.

Paulo Renault

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Entre Atos


Tuas pernas me aprisionam a cintura.
não sei precisar o momento em que
a dança de gestos começou
pouco me importa

Enfeitiçada pelo brilho que se faz em teus olhos
passeio minhas mãos pelas tuas coxas
trilho conhecidos caminhos
brinco de abrir clareiras entre teus pêlos
com minhas unhas
espreito um leve tremor em teu sorriso

A noite é de calor perturbador
entra pela janela um vento quente que me bafeja a nuca
empurra minha boca de encontro à tua
nascem flores em nossas línguas

Dos corpos, agora unidos
alça-se um lancinante perfume
sentimentos em tumulto
frases incoerentes

Demônios e abstrações
rondam nossos corpos
embriagam-se com nossos
desvarios

Roleta russa de desejos navegam pelos ares
e em silêncio ardem na noite

Helena Jorge

Décimo Quinto Andar


Longa noite solitária em que o vento do outono
mais  fere que refresca.
O corpo todo queima,
como se o suor que lhe escorre dos poros
se transformasse em veneno.

Da janela do quarto ele observa a noite
o movimento das pessoas  que
se assemelham a formigas
vistas daquele décimo quinto andar...

O perfume dela ainda habita em seu olfato
instiga seus sentidos
lhe causa tremores.
Ele fecha os olhos e pode sentir sua presença
o toque quente das bocas...o roçar das línguas...
a dança dos corpos...

O olhar se perde pela noite
seus pensamentos indisciplinados viajam até ela.
Alguns momentos atrás era no corpo dela
que ele se perdia...

Então, assim meio que enfeitiçado,
ele passeia as mãos pelo próprio corpo
acaricia sua pele nos lugares onde pouco antes
ela estivera.
Percorre caminhos que foram dela.
Ali, naquele lugar
isolado de qualquer tipo de contagem
de tempo ou de horas
ele arde de desejo.

Helena Jorge