segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Anseio

Madrugada quente
em que a chuva grossa lava o asfalto
aroma deliciosamente conhecido
reconhecido.

Conto
distraída
os palitos de fósforo queimados
que ainda persistem em habitar
o espaço limitado
da caixa

Uma ultima dose me espera
o que será de mim quando chegar ao fim?

Fim
palavra que reluto bravamente
em pronunciar

Fim
Destino inglório
que teima em me perseguir...

Fim
recomeço
fim
recomeço...

E assim
contando fósforos
economizando goles
a noite me envolve
quente
molhada
como meu corpo que aguarda
anseia
a tua chegada.


- Helena Jorge - 

domingo, 27 de outubro de 2013

Helena

Helena, minha doce Helena
teu nome é canção impiedosa
que tanto embevece meus ouvidos
por isso teimo em não pronunciá-lo
somente na calada fria da noite
em dissimuladas e sussurradas vezes
escandindo suas sílabas em minha boca úmida
sentindo o estremecer da primeira vez
Helena, minha linda Helena
tal és a primeira, quiçá única
tu és mistério hermético
brinca prazerosa entre meus lábios
escorrendo pelos cantos como veneno
lambuzando-me o rosto, tal criança e sobremesa
sabor almiscarado, degustado letra a letra
todas as curvas, retas e serifas
Helena, tua divindade, reluzindo em minha boca
ambrosia doce rolando pela garganta
segredo compartilhado ao ouvido da brisa lépida
que traz de volta carícias e beijos quentes
Helena, minha lânguida Helena
Helena, tu és minha prece noturna
Helena, tu és meu evangelho herege
Helena, tu és meu fim, meu começo e meu desejo


- Paulo Renault - 

sábado, 26 de outubro de 2013

...

No meio da avenida
rasgando o véu de fumaça
abre as asas
e voa
uma garça
solitária e branca

- Helena Jorge - 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Não me siga !

É madrugada e voltamos para casa.
Infinita avenida à nossa frente e as palavras que saltam como que em chamas, no vidro traseiro do carro que nos precede: “Não me siga, estou perdido...”Desejo louco de seguir o caminho que ninguém conhece...
Desejo louco de simplesmente me perder!

- Helena Jorge - 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Das longas noites suadas

Das longas noites suadas e murmurantes
Das horas silenciosas e entrecortadas
Do gosto de suor nos lábios e língua
De pensamentos lascivos retiro então
Minhas memórias enlanguescidas
Da tua pele de pérola misteriosa
Lar de meus dedos longos e sedentos
Rainha de meus desejos sôfregos
Tens em tuas mãos meus segredos
Dona de meus músculos retesados
De dor e paixão lancinante
Respiro o ar que exalas de tua boca
Me alimento de teu corpo quente
Bebo o suor que verte de tua pele
Tu és a Senhora de meus anseios
De minhas noites em claro
Das minhas longas tardes mornas
Perversa e cruel em tua distância
Solícita em teus sabores e calores
Te perco e te encontro e não te prendo
Solta entre meus braços e pernas
Te desejo e espero tua volta
Ao teu reino, minha Rainha
Ao reino de nossas longas e suadas noites.

- Paulo Renault - 

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Madrugadas Insones

Além da janela há uma noite escura e fria
de vento sibilante que abre suas lâminas
de navalha sobre minha pele descoberta
o sono acaricia meu rosto, mas como uma mulher
não me toma em seus braços, espera que eu me renda
mas resisto aquele carinho frágil
espanando as areias de meus olhos escuros
acendo um cigarro, sorvo a fumaça cinza
ouço o estalar lento do fumo incandescente
atravesso insone a noite, qual vaso de guerra
perguntam-me alguns se jamais durmo
aos quais respondo “às vezes, quando me lembro “
a natureza dúbia dos lobos, despertos com o sol
uivando nas montanhas para a lua das noites escuras
nunca me fazem o óbvio questionamento
“o que procuras através dessas madrugadas”
porém agradeço não o fazerem, pois nesse caso
mesmo eu não saberia a resposta a dar
atravessei insone as noites quentes de lua cheia
e agora que ela se foi, minguando vagarosamente
as noites são frias e solitárias, prenúncio de inverno
neste outono sem folhas crepusculares flutuando
o dia chega mansamente, mais uma vez
cinzento como a fumaça que sopro no ar parado
tímido, o sol mostra sua face para os lobos
e me pergunto o que busco nas madrugadas insones
que pacientemente, tanto aguardo chegarem

- Paulo Renault - 

sábado, 27 de março de 2010

Questão


Questão primordial neste momento:
se a manhã é de sol
por que mal acordo e já
anoiteço ?

- Helena Jorge - 

Sei lá

Não sei o que faço
e quando intuo
desfaço

Não sei o que penso
e quando percebo
despenso

Não sei o que digo
e quando me ouço
desdigo

Não sei por que vivo
mas quando me perco
revivo.


- Helena Jorge - 

domingo, 21 de março de 2010

Arder

Ela sente uma estranha efervescência em seu sangue,
Assim como se ele tivesse se transformado em lava.
Incandescente.
E se arrastasse, queimando, pelas suas veias...
Um cheiro forte de jasmim meio que a embriaga,
Entorpece.
E a lembrança do contato das peles a torna inerte,
Vencida,
Muda...
E em sua mudez, ela repete seu nome,
Como um mantra
Palavra mágica que lhe abre as portas dos sonhos
Dos desejos
Do prazer.



- Helena Jorge - 

Boca

De sorrir teu sorriso
De comer tua boca
De falar tuas palavras
De sussurrar em teu ouvido...
Palavras
Desconexas
Inteiras
Frementes
Capazes de criar
Sons e cores
Na tua pele.


- Helena Jorge -